Jeane Alves

Jeane Alves
Vitória de G 1 com Equitana

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Curiosidade por Milton Lodi

CURIOSIDADES (IV)


Luiz Gonzalez foi um verdadeiro ás das rédeas. Ao contrário de seus conterrâneos chilenos que foram para a Gávea, fixou-se em Cidade Jardim. Era destacadamente o melhor, com muita classe, ótimo cálculo de corrida e que, em sua predominância, ocasionalmente, era enfrentado por um muito bom freio nacional, Pierre Vaz.

Gonzalez montava preferencialmente para o Stud Paula Machado, e chegou a vencer o GP Brasil para o seu proprietário. Após muitos anos, chegou o momento de Gonzalez parar. Homem de temperamento discreto, falando pouco e dificilmente sorrindo, ele telefonou para o Rio para falar com Francisco Eduardo de Paula Machado, então líder do Stud para o qual tantas glórias havia conquistado. Gonzalez foi a Rio e, surpreendeu Francisco Eduardo, que não imaginava o motivo da visita, tendo declarado que a visita tinha dois motivos. O primeiro era agradecer os muitos anos de bom convívio e que lhes fora tão agradável e proveitoso, o segundo era pedir como recordação a farda com que obtivera a sua última vitória. Gonzalez tinha classe em todas as áreas.

Envolvendo Luiz Gonzalez houve ainda um fato curioso. Eu conversava na então minha cocheira em Cidade Jardim com um bom treinador que era muito amigo do meu Zé Pinto (José Silvestre de Souza). Ele me contava que até chegar a obter provas importantes de padrão nobre como treinador, tinha passado maus momentos. Menino pobre e descalço, já rapazinho conseguiu vaga como cavalariço, época em que ficou amigo do então, também, cavalariço Zé Pinto. Naquela época, ele tinha uma fome constante, devoradora, acabava de almoçar bem e continuava com fome, acordava à noite sem poder dormir de tanta fome, era um horror. O dinheiro curto e, mesmo que tivesse mais não ia dar, era uma fome absurda. Em desespero, passou a se levantar de madrugada, antes de atender os seus escovados, e ia para umas ruas próximas ao prado, onde havia o hábito dos leiteiros e dos padeiros em deixar uma garrafa de leite e um saco de papel com dois, três ou quatro pães. A cada madrugada trocando de porta, bebia o leite tirava dois pães. Até que em certa madrugada, ao estender o braço para pegar o leite e os pães, repentinamente, a porta se abriu e ele levou uma violenta chicotada, e teve que sair correndo. O morador, que o espreitava e aguardava a oportunidade, era Luiz Gonzalez.

O treinador disse-me que todos sabiam que ele era um homem decente, mas a fome era incontrolável, e ela só passou quando um médico receitou-lhe um forte vermífugo, ele então se livrou de uma voraz solitária, uma tenia que não lhe dava sossego.

Faltando duas semanas para um GP São Paulo, o Stud Montecatini, que ainda não criava, começou a vender os seus cavalos e éguas já em fase de completar as campanhas nas pistas. O ótimo Clackson já tinha sido vendido. O Haras Santa Ana do Rio Grande, através de José Carlos Fragoso Pires Júnior, comprou Dourness, que estava sendo preparada para correr o GP OSAF, o São Paulo das éguas. O treinador paulista foi mantido, e o jóquei que estava para ser contratado pelo Santa Ana, foi Jorge Ricardo, que então conseguiu a sua primeira vitória em Grupo 1. Dourness foi então para a reprodução. Ela era de criação da Agro Pastoril Haras São Luiz Ltda, de Hernani Azevedo Silva, e era filha de I Say e To Break, por Kurrupako e Heart Break, por Normanton e Cannes, por Flamboyant de Fresnay e Cassia, essa importada da França. Dourness foi boa mãe, e seu melhor produto, no Santa Ana, foi Miss Dourness, muito boa corredora e ganhadora clássica de G.1.

Luis Diaz era um espetacular jóquei, que tinha completa noção da velocidade e do ritmo das corridas, nem usava cronômetros para marcar os tempos dos animais que trabalhava, pois a sua opinião sempre era confirmada pelos cronômetros dos treinadores, mas que lutava contra o peso. O seu biotipo físico não era adequado para a sua profissão, alto e forte. Para poder montar ficava sem comer e freqüentando saunas, era um sacrifício. Mas em cima de um cavalo era fantástico. Ele foi montar o ótimo Hyperio no Derby Paulista, onde a força maior era o invicto craque Farwell, que tomava a ponta logo após a largada e sempre ganhava por larga margem. Mas Diaz queria achar uma maneira de Hyperio conseguir o impossível, e admitiu que o Farwell, se forçado a um ritmo muito violento, não impondo seu habitual forte ritmo, poderia se cansar no final. Mas como acompanhar Farwell, imbatível da largada à chegada? O que se viu foi Luis Diaz montando Hyperio, dar fortes chicotadas na anca de Farwell nos primeiros metros, fazendo o campeão disparar na ponta abrindo boa vantagem. Hyperio correu em segundo no primeiro terço da corrida, mas Luis Diaz o segurou para último até a entrada da reta, pois o ritmo era muito forte, quando então engrenou a sua atropelada. E foi assim que Hyperio conseguiu chegar em um segundo longe, com o vitorioso Farwell aumentando cada vez mais a diferença. Farwell nunca tinha apanhado antes, e foi a sua resposta à agressão.

Rigoni havia vencido o GP Brasil com Viziane, e contava com ele para tentar uma segunda vitória no mesmo páreo do ano seguinte. Cerca de três semanas antes do próximo GP Brasil, Rigoni foi informado que a montaria de Viziane não seria sua. Rigoni ficou a pé. Mas até fora do Brasil a sua fama era enorme, os treinadores e jóqueis de fora que ao Brasil vinham para participar de eventos especiais conheciam a sua alta categoria. Rigoni, então, telefonou para a Argentina, contou que estava sem montaria. Foi-lhe, então, de pronto oferecida a montaria de um bom cavalo, que iria para o GP Brasil. E foi assim que Terminal, com o fenômeno, deu ao campeão mais uma vitória consagradora.

Uma noite após o jantar no Haras Bela Esperança, perguntei ao Dr. Paulino (José Paulino Nogueira) como ele havia conseguido importar o Pharas, cuja mãe Astronomie era de grande classe e, embora, seus primeiros filhos não tivessem correspondido às enormes esperanças, ela tinha os filhos muito valorizados, os preços, normalmente, fora do poder aquisitivo usual do turfe brasileiro. Ele me disse que tinha sido justamente pela desilusão com os primeiros produtos de Astronomie que o preço foi acessível. E para ele, o insucesso inicial de Astronomie na reprodução não tinha sido surpresa, pois os filhos dela tinham sido de Djebel, com o qual ela não fazia boa cruza, mas Pharas em vez de Djebel tinha Pharis como pai, cruza perfeita para uma filha de Asterus. O Dr. Paulino era um mestre.

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